Antônio Rebendoleng: mito ou história?

Mapa da Província Goyaz

Um Polonês na Chapada dos Veadeiros em 1.840? A Saga de Antônio Rebendoleng, como ficou conhecido na tradição goiana, e as diversas ocupações do cerrado Goiano.

A história da Chapada dos Veadeiros não se resume apenas a cristais e misticismo. É um complexo registro das diversas ondas de ocupação do interior goiano. No centro dessa tapeçaria histórica, está o pioneiro Antoni Dolenga Szerwinski, cuja vida conecta as guerras napoleônicas na Europa à colonização no Planalto Central brasileiro.

O Soldado Europeu e a Fundação da Fazenda Polônia

Antônio Rebendoleng, nascido na Polônia, região de Krosno, por volta de 1.789, foi um combatente que serviu nas forças de Napoleão Bonaparte. Fugindo dos conflitos que assolavam a Europa na primeira metade do século XIX, emigrou para o Brasil, provavelmente antes de 1.830. A trajetória o levou a Minas Gerais, onde se casou com Umbelina Adelaide Silvânia de Mello, antes de fixar-se em Goiás.

O status de pioneiro foi oficializado por sua atuação junto à Guarda Imperial de Dom Pedro II. Em reconhecimento, recebeu uma carta de sesmaria do próprio Imperador, por volta de 1.840.

A extensa propriedade foi batizada de Fazenda Polônia, em homenagem à sua pátria. Rebendoleng instalou-se no Nordeste Goiano, com o propósito de desenvolver a agricultura e a pecuária de subsistência, tornando-se o patriarca de uma das mais antigas estirpes de ascendência europeia na Chapada dos Veadeiros.

A Abrangência da Sesmaria e o Destino das Terras de Antônio Rebendoleng

A concessão de terras por meio de uma Carta de Sesmaria abrangia uma vastíssima área. Embora os limites precisos da Fazenda Polônia sejam de difícil demarcação atual, os estudos históricos indicam que as sesmarias no interior atingiam frequentemente até três léguas de comprido por uma de largo, o que equivale a aproximadamente 13.068 hectares.

O núcleo original da Fazenda Polônia abrangia porções significativas dos atuais municípios de São João d’Aliança e Água Fria de Goiás, localizados na região Sul e Leste da Chapada dos Veadeiros. O domínio se estendia por terras que foram fundamentais para a ocupação do entorno do que hoje é o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

Trecho da escritura da sesmaria de Antônio Rebendoleng

Documento cartorial datado de 1.848 , “achado” no Cartório de Registro de Notas e Ofícios do município de São João D‟ Aliança – GO.

Após a morte de Antônio Rebendoleng, a propriedade foi dividida entre seus doze filhos e seus respectivos descendentes. Ao longo dos séculos, essa terra foi continuamente fragmentada, vendida ou desmembrada, dando origem a inúmeras fazendas menores e comunidades rurais. Hoje, o nome “Fazenda Polônia” refere-se a essas frações de terra original mantidas pelos descendentes ou a comunidades que se formaram a partir da propriedade.

Mineração, Quilombos e Agricultura

A fixação do Polonês se deu em um sertão cuja economia e sociedade estavam em plena transformação.

A ocupação colonial inicial, no século XVIII, foi impulsionada pela mineração de ouro. Arraiais como Cavalcante, fundado em 1.740, e São Félix surgiram como bases de garimpo. Contudo, o esgotamento do ouro reverteu a função económica da terra, levando as vilas à estagnação e forçando a população a migrar para a agropecuária.

A região também foi marcada pela presença histórica de quilombos, como o vasto Quilombo Kalunga, em Cavalcante, que representavam focos de resistência à escravidão e estabeleceram uma forma distinta de uso da terra, baseada na coletividade.

A partir de meados do século XIX, a agricultura se consolidou como base económica. O prestígio da produção local foi atestado pelo prêmio do Trigo Veadeiros em Chicago, em 1.850, demonstrando o sucesso da fixação agrícola.

O Mito dos Irmãos Inimigos: Aquiles e Heitor

A saga da família Szervinsk não é apenas histórica, mas profundamente mítica, estudada academicamente como um mito de fundação. Um dos episódios mais dramáticos e simbólicos é o conflito entre dois de seus filhos, nomeados em referência direta aos heróis da Ilíada: Aquiles e Heitor. A inimizade teria se originado por disputas banais de limites e posse de roça.

Antigo tear fabricado por Aquiles, como afirmam seus descendentes.

Relatos citam ameaças de morte e a traição de Heitor, que teria derrubado a roça de Aquiles em um momento de ausência do irmão. Essa narrativa trágica simboliza o drama da partilha do grande legado territorial e a dificuldade de estabelecer a ordem e a lei em uma terra em processo de colonização.

Muitos descendentes de Antônio Rebendoleng se espalharam por São João d’Aliança, Alto Paraíso e arredores, ainda hoje há famílias que preservam o sobrenome ou o apelido “Rebendoleng” como parte da herança oral.

Planeje sua jornada pelo Portal da Chapada, o guia mais completo da região.

Explorar o Guia Turístico
Nota bibliográfica: Esta pesquisa baseou-se na dissertação “Tessituras de memórias no interior de Goiás: a saga do Polonês Antonio Rebendoleng Szervinsk [des]fiada no tear do imaginário”, de autoria de Juscelino de Sales.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *