A história (longa e não oficial, com conjecturas plausíveis, mas incertas) de São João d’Aliança (e toda região Norte de Goiás)
PARTE I – O Enigma dos Awã e o Labirinto dos Vales

Não há um registro histórico que consolide toda a história que São João d’Aliança tem para contar. A história (longa) só fecha se considerarmos os atores que se sucederam e, em por longas décadas, coexistiram na apropriação do espaço.
Sem o rigor científico de um historiador, vamos tentar costurar uma colcha de retalhos que inevitavelmente conta a história de toda a região Norte de Goiás e Sul do Toncantins.
O Palco: Uma fortaleza Sem Muros
Se você está cruzando a BR-010 agora, subindo a Serra do Paranã, pare por um instante e olhe para as escarpas que desenham o horizonte. Para o viajante de hoje, São João d’Aliança é o “Portal da Chapada”, um refúgio de águas cristalinas. Mas para a Coroa Portuguesa de 1722, esta região era um borrão não mapeado, incerto e potencialmente rico em ouro e diamantes. A topografia aqui é um grande território de esconde-esconde.
SJA atual está no alto da Serra do Paranã, um grande maciço de rochas quartzíticas e metasseidimentares que se estende imponente do centro Norte do DF ao Sul do Estado do Tocantins, com altitudes acima de 1000 metros. Mais popularmente conhecida como Chapada dos Veadeiros. A serra é ladeada por grandes vales:

A Leste, o Vão do Paranã, uma vasta planície de depressão, com solos profundos e fertilidade singular, que se extende de Formosa (na divisa com o DF) até o extremo Norte de Goiás.

Vista da Rampa do Vale do Paranã, em Formosa/GO, limite Sul do vão.
É a calha de drenagem do Rio Paranã, na divisa física com o estado da Bahia, limitado a Leste pela Serra Geral de Goiás, um grande escarpa de 800 metros

Vista das Serras Gerais de Goiás/GO, em São Domingo, divisa com a Bahia, limite Norte do vão.
A Sudoeste, rumo ao Norte, o Vale do Rio Maranhão (Alto Tocantins), uma sucessão de encaixes profundos e serras escarpadas que se abrem em margens famosas pelas manchas de terra roxa e solo de alta fertilidade. O rio se forma em uma rede de drenagem do Quadrilátero Cruls e segue a recebendo contribuintes importantes como o Rio das Almas e o Rio Palma. Ao se encontrar com o Rio Paranã formam oficialmente o Rio Tocantins.
A Oeste, o Lago de Serra da Mesa, segundo maior reservatório do Brasil. Antes da barragem, era parte do curos alto do Tocantins, uma sucessão de desfiladeiros e serras de topo plano (mesetas). Historicamente, era o caminho entre o Grão-Pará e o Planalto Central.

Lago de Serra da Mesa em Colinas do Sul/GO, no alto do Rio Tocantins.
Clique para ampliar em html – no centro estão mapeados algumas povoações ainda existentes na chapada: Cavalcante, Flores, Nova Roma e Forte.
A história começa e termina nos vales: Os povos originários
Os primeiros registros de ocupações humanas datam de 8.500 a 12.000 anos atrás, por grupos que eram majoritariamente caçadores-coletores nômades, que coexistiam com a extinta megafauna pleistocênica.
Entre os séculos XVII e XIX, o Planalto Central abrigava cerca de 200 etnias indígenas, pertencentes, em sua maioria, à família linguística Jê (ou Gê), incluindo os Goyá, CaiaApó, Xavante e Xerente. Na área da Chapada dos Veadeiros, as principais etnias eram os Xerente e os Avá-Canoeiros.
Ainda é possível encontrar registros iconográficos da cultura indígena em sítios arqueológicos, com mais abundância em Colinas do Sul (região do Lago de Serra da Mesa), às margens do Rio Preto, e ao longo do vale do Rio Araguaia, Paranã, Tocantinzinho e Maranhão.
Registros fotográficos de pinturas rupestres em Colinas do Sul, no Funil do Rio Preto – Fazenda Montana
O Choque de Mundos: 1722 e os Donos do Silêncio
Tudo muda oficialmente em 3 de julho de 1722. Quando as botas de Bartolomeu Bueno da Silva, o segundo Anhanguera, esmagaram a vegetação do cerrado pela primeira vez em caráter definitivo, a Coroa acreditava estar inaugurando um capítulo de posse. Mal sabiam que o “Sertão” já tinha donos que não constavam nos mapas de Lisboa.
Ao avançarem pelos vales, os exploradores esperavam encontrar o “vazio” ou povos que pudessem ser rapidamente dominados. O que encontraram foi o terror. Das margens sombreadas do Rio Maranhão, surgiam guerreiros que não aceitavam diálogo e dominavam o rio com canoas de casca tão velozes que pareciam fundir-se à água. Eram os Avá-Canoeiros. Autodenominados Awã (gente), eles se tornaram lendas vivas por uma razão simples: eles dominavam a arte de serem invisíveis. Diferente dos povos das chapadas, eles não faziam fogueiras que soltassem fumaça e não deixavam rastros por onde passavam.
O Enigma da Origem: Uma Nova Linhagem de Resistência Aqui entramos no “X” da questão que intriga historiadores há séculos. A teoria tradicional tenta reduzir os Avá-Canoeiros a um fruto da miscigenação causada pelo colonizador — uma mistura de índios Carijós fugidos das bandeiras com negros escravizados. Mas a lógica do território e a cronologia do conflito nos contam uma história muito mais profunda.
Se aceitarmos que eles eram apenas um grupo de “fugitivos”, como explicamos que, em poucas décadas após o contato de 1722, eles já dominavam estrategicamente um território gigantesco, do Rio Araguaia ao Vão do Paranã? Como um povo “novo” teria o mapa mental ancestral necessário para transformar cada gruta e cada correnteza em uma armadilha militar?
A hipótese mais fascinante — e que dá sentido aos 200 anos de embate que se seguiriam — é a de uma Etnogênese de Guerra. Os Avá-Canoeiros eram o núcleo Tupi original dos vales, os mestres milenares das águas. Ao longo de um século inteiro de invasões (quatro gerações de resistência), esse núcleo original transformou o Vão do Paranã em um santuário. Ali, eles acolheram e fundiram-se a outros perseguidos: os Carijós que conheciam as táticas dos paulistas e os negros quilombolas que traziam consigo novas tecnologias de combate.
O que nasceu nos vales de Goiás não foi uma simples mistura étnica, mas uma nova linhagem de guerreiros: os Avá-Canoeiros do século XVIII, uma força híbrida e indomável que decidiu que o território jamais seria entregue sem sangue.
O Século da Invisibilidade e o Declínio Solitário Por volta de 1850, após cem anos de guerra total contra as minas de Cavalcante e São Félix, o cenário começou a mudar. O ouro escasseou, mas o cerco aumentou. Os Avá-Canoeiros, agora dispersos em grupos menores para sobreviver, iniciaram uma transição dolorosa. Miscigenados e segmentados, eles se tornaram um “povo fantasma”.
Escondidos nas matas mais profundas, invisíveis durante o dia e observando o avanço das fazendas durante a noite, eles entraram em seu segundo século de conflito (1820-1920) já cansados e sem recursos, mas ainda mantendo o pavor nos olhos dos novos habitantes. É desse período de transição — entre a glória da resistência e o cansaço do isolamento — que surgem os relatos mais impressionantes e cruéis da nossa história.


