A história (longa e não oficial, com conjecturas plausíveis, mas incertas) de São João d’Aliança (e toda região Norte de Goiás)
PARTE I – O Enigma dos Awã e o Labirinto dos Vales

A história de São João d’Aliança não está contada em nenhum registro oficial. Ela é uma colcha de retalhos que só faz sentido quando unimos os atores que, por séculos, se sucederam ou coexistiram na apropriação do território. Sem o rigor acadêmico, mas com base em evidências documentais, buscamos costurar os fatos que definiram a ocupação do Norte de Goiás e o Sul do Tocantins.
O palco: uma fortaleza natural
SJA atual está no alto da Serra do Paranã, um grande maciço de rochas quartzíticas e metassedimentares que se estende imponente do centro Norte do DF ao Sul do Estado do Tocantins, com altitudes acima de 1000 metros. Mais popularmente conhecida como Chapada dos Veadeiros. A serra é ladeada por grandes vales:

A Leste, o Vão do Paranã, uma vasta planície de depressão, com solos profundos e fertilidade singular, que se extende da divisa do DF até o Norte de Goiás.

Vista da Rampa do Vale do Paranã, em Formosa/GO, limite Sul do vão.
É a calha de drenagem do Rio Paranã, na divisa física com o estado da Bahia, limitado a Leste pela Serra Geral de Goiás, um grande escarpa de 800 metros

Vista das Serras Gerais de Goiás/GO, em São Domingos, divisa com a Bahia, limite Norte do vão.
A Oeste e Sudoeste, os Vales do Maranhão e Alto Tocantins. Uma sucessão de desfiladeiros e serras de topo plano (mesetas) que historicamente conectava a rota entre o Planalto Central e o Grão-Pará. Atualmente, grande parte do território está submersa pelo Lago de Serra da Mesa.

Lago de Serra da Mesa em Colinas do Sul/GO, no alto do Rio Tocantins.
A história começa e termina nos vales: os povos originários
A Chapada dos Veadeiros é um triplo dividsor de águas do Brasil, caminhos inevitáveis para migrações humanas que a arqueolgia ainda não registrou com precisão.
As barrancas do Córrego Rico, em Planaltina-GO, revelam uma das ocupações mais antigas do Planalto Central, datada de 10.600 anos. Ali, arqueólogos identificaram uma verdadeira fábrica lítica: cerca de 4000 peças entre machados, cunhas e raspadores de pedra, testemunhos de uma geração que coexistiu com a megafauna pleistocênica.
Pesquisas recentes, como as do arqueólogo Eurico Miller, sugerem um cenário fascinante e pouco conhecido: a convivência de duas culturas indígenas distintas que chegaram juntas até o limiar da colonização:
- Os Caçadores Pré-Cerâmicos: Grupos “antigos” que mantinham o estilo de vida nômade, focados na caça e na pedra polida.
- Os Agricultores Ceramistas: Grupos “novos”, de tradição Jê, que dominavam a cerâmica e a agricultura há cerca de mil anos, estabelecendo aldeias circulares no topo das chapadas.
Pinturas e inscrições em pedra
Em toda a chapada e para além dos vales circundantes foram identificadas pinturas com figuras geométricas e animais, além de petróglifos, inscrições abstratas gravadas diretamente na rocha por polimento. São mais de 90 sítios arqueológicos de grande riqueza catalogados na região. Esses símbolos, que ligam o Vão do Paranã à bacia do Araguaia, são o mosaico de uma pré-história ainda pouco estudada.
Registros fotográficos de pinturas rupestres em Colinas do Sul, no Funil do Rio Preto, e petroglifos em Formosa
Formosa, Gruta 14: figuras de um nicho de parede. Arte Rupestre no Centro do Brasil – Pedro Ignácio Schmitz, Altair Sales Barbosa et alii
Os primeiros emissários da Coroa Portuguesa
Embora nomes como Sebastião Marinho (1592), frei Cristóvão de Lisboa (1625), Manuel Brandão e Gonçalo Pais (1669) tenham cruzado o cerrado antes e deixado anotações e registros, foi a bandeira de Bartolomeu Bueno da Silva, o segundo Anhanguera, em 1722, que oficializou o entrada da Coroa Portuguesa na porção Norte de Goiás.
💡 Você Sabia?
Reza a lenda que, para forçar os indígenas a revelarem a localização das minas de ouro, Bartolomeu Bueno colocou fogo em uma tigela de aguardente (que os índios pensavam ser água). Ele ameaçou atear fogo em todos os rios e fontes se não o guiassem até o metal precioso.
A captura dos gentios e o ciclo do ouro
No período do avanço das bandeiras vindas da Capitania de São Paulo, os objetivos eram a captura do gentio, cuja escravidão precedera a dos africanos, e a pesquisa de jazidas de ouro e diamantes.
Atividades a que faltava caráter estável e, com ele, a base inseparável do estabelecimento de uma (…) verdadeira sociedade.
Dezenas de etnias que ocupavam os vastos sertões foram apagadas pelo colonizador: mortos em embate, mortos por doenças trazidas pelos europeus, aldeados em territórios exíguos, escravizdos e, os de melhor sorte, se dispersaram ou se integraram à nova dinâmica, sem identidade e sem alvissareiro horizonte.
A primeira atividade patrocinada pela Coroa Portuguesa foi a mineração. Fundamental no avanço da fronteira dos sertões, alguns arraiais e julgados tiveram uma produção significativa, porém a custos elevados e logística desafiadora: São Félix, 1736, sede da primeira Casa de Fundição; São Domingos, 1733, inicialmente, Arraial Velho; e Cavalcante, 1740.

Ilustração represenativa de comitiva de bandeirantes paulistas à margem de curso de água.
A Chapada dos Veadeiros e seus vales tornaram-se um mosaico de arraiais que surgiam e desapareciam na mesma velocidade dos veios de ouro.
A vida nesses arraiais e vilas era marcada pelo isolamento extremo. O custo para trazer ferramentas e víveres do litoral era exorbitante, além da manutenção de casas de contagem, fortes e paróquias em um terreno que ainda não havia sido pacificado.
O povo que não estava disposto a abandonar o seu território
Diferente de outras etnias, os Avá-Canoeiros reagiram com resistência e não aceitaram o diálogo. Relatos históricos descrevem combates denodados, com apoio de matilhas de cães bravos no enfrentamento às tropas coloniais. Na resistência, estrategicamente, interrompiam rotas fluviais, estradas e atacavam frentes de exploração de novas minas.
Os Avá-Canoeiros estendiam seus domínios pelos vales dos rios Araguaia, Maranhão, Tocantins e Paranã, Sertão de Amaro Leite e topos da chapada.
Frente ao poder de fogo dos colononizadores, abriram uma útlima trincheira: se tornarm um povo invisível. Mudos e recolhidos nos grotões da mata durante o dia, caçavam, pescavam e coletavam durante a noite. Enquanto o território ainda lhes provia o sustento, permaneceram como sentinelas.
A menina Kaukamy, filha de Tutawa e Taego e um adulto registrado pela equipe da Funai
O enigma da origem: uma nova linhagem de resistência
A historiografia clássica frequentemente descreve os Avá-Canoeiros como Índios Negros ou Carijós, sugerindo uma mistura entre indígenas trazidos do sul e negros quilombolas. Contudo, a lógica temporal e linguística aponta para algo mais profundo. Como um povo teria, em poucas décadas, o mapa mental ancestral necessário para transformar todo o Norte de Goiás em uma armadilha logística?
A hipótese mais plausível é a de uma Etnogênese de Guerra. Os Avá seriam um núcleo Guarani (como aponta estudos do dialeto) original do interior. Ao longo do primeiro século de invasões, este núcleo acolheu outros perseguidos: os Carijós, que se dispersaram das baandeiras paulistas e conheciam as táticas militares; e os negros quilombolas, que traziam consigo novas técnicas de combate e novos símbolos religiosos.
O que nasceu no século XVIII foi uma nova linhagem de guerreiros híbridos, forjada pela necessidade de sobrevivência extrema.
Leia na Parte II – A dura transição entre a mineração e a pecuária
🖋️ Assim registrou…
Vagamente ateu, com inclinação às superstições, mais céptico do que fatalista, temente aos caprichos da Varia Fortuna, o cerradeiro ou cerratense é por excelência um homem barroco. Criado nos ocos sertanejos, acredita na liberdade, sua natural condição: daí a dificuldade em aceitar o trabalho de rotina ou qualquer trabalho, a menos que lhe acene a deusa romana da Varia Fortuna. Não tem preconceitos, como os terribilíssimos do universo nordestino de Gilberto Freire. Em conseqüência é o povo mais miscigenado de negro do país e um dos poucos em que, contraditoriamente, não há herança cultural marcadamente africana, devorada pelo barroquismo imperante.
Algumas gramáticas portuguesas do tempo do neocolonialismo salazarista traziam freqüentemente um mapa-múndi mostrando as modificações e expansão do idioma de Camões pelo mundo, estampando, nos sertões do centro do Brasil, uma interrogação com os dizeres: linguagem e prosódia não identificados. O ente inominado: o jardim de cerrados das Oréades.”
📜 Fontes Históricas
• Aspectos da Cultura Goiana – Ático Vilas Boas da Mota e Modesto Gomes.
• Aldeamentos Indígenas na Capitania de Goiás – Marivone Matos Chain.
• Os Índios Negros Carijó – André Amaral de Toral.
• Rosa de Ouro – Afonso Arinos de Melo Franco





