A história (longa e não oficial, com conjecturas plausíveis, mas incertas) de São João d’Aliança (e toda região Norte de Goiás)

PARTE II – O gado vaccum e o surgimento do vaqueiro goiano

Mascates carregando mulas com mercadorias para viagem

Os primórdio da pecuária no Nordeste Goiano

A colonização do interior fora permitida – e incentivada – pela coroa portuguesa desde 1600. Tradicionais Casas Portuguesas investiram na ocupação das Terras Novas, região do Rio Palma e baixo Paranã [Nordeste goiano, divisa com Tocantins e Bahia, o coloquial “ToBa”] desde 1967.

Segundo documento pouco conhecido da histografia tradicional, em requerimento encaminhado ao Capitão-General:

Passados anos, o coronel Garcia d’Ávila Pereira mandou cerca de 400 homens armados em nova tentativa que só avançou até a citada fazenda, que voltou a ser povoada. Em 1708, foram novamente obrigdos a retirar-se, tornando a deixar gado nesse sertão que conquistaram.

Ainda segundo o registro, retornaram em 1730, seguindo pelo Rio Palma abaixo, chegando ao baixo curso do Paranã, onde estabeleceram fazendas e comércio de farinhas, milhos e bananas.

Mapa thopographico em que se demonstra a extenção de terreno que ocupa na Capitania de Goyáz segundo regimento de Cavalaria Auxiliar da mesma Capitania

Mappa thopographico em que se demonstra a extenção de terreno que ocupa na Capitania de GoyázClique para ampliar em HTML. Na altura da Chapada dos Veadeiros, na borda Oeste, lê-se:

Em mesma época, outras frentes provinham do vale do São Francisco e do sertão do Piauí. Assim, toda a região foi apropriada por vaqueiros e comerciantes baianos, trazendo tropas de animais carregados de mercadorias e gado. Como dá-nos conta um dos nossos primeiros historiadores, Padre Silva e Souza:

Com o avanço da mineração, gado e ouro passaram a ser atividades simultâneas e integradas. O gado era fonte de alimento, força de tração e transporte fundamentais ao arraiais e ao sustento dos fazendeiros e comerciantes.


O Fim do Ciclo do Ouro

Em 1773, o governador D. José de Almeida Vasconcelos patrulhava o provincia, fazendo-se iminente para todo o lado a exetinção aurífera, foi recebido nos arraiaias condenados à decadência com o ânimo gentil com que as última esperanças lançam pontes por sobre os abismos das derradeiras misérias.

O diário de viagen nos traz o primeiro registro do aldeamento do Forte, em referência ao rio que nominava a região: Capitinga.

Sempre viajando à noite, que tal era o seu estranho costume, conquanto não desprovido de bom senso face aos dias abrasadores do sertão (…). Do extinto São Félix, tangenciando as magníficas altitudes de Alto Paraíso na Chapada dos Veadeiros, antiga Viadeiros, o capitão general veio direto sobre São João D’Aliança, antiga Capitinga, e sobre Cocal do Andrade, nas proximidades da cidadezinha de São Gabriel de Goiás.

Mapa Província de Goyaz - 1753

Mapa Geral da Capitania de Goyaz (1753) – Clique para abrir em HTML – No centro direito (região contornada em azul esverdeado), está representado o Rio Paranã, e a legenda diz: “Certão degado, chamado Paranã”.

A Formação do Forte – uma comunidade diversa e ativa se forma entre as escarpas

Relatos orais de antigos moradores do vão do Paranã, entre o atual Forte e Couros, atualmente Formosa, rememorando histórias recontadas por gerações, afirmam que o vale era um terreno de posseiros mulatos, miscigenados e negros fugidos (uma nova categoria de brasileiro) que domesticaram vacunos desgarrados de rebanhos curraleiros oriundos da Bahia e do Piauí. O mameluco-brasilíndo, nem europeu, nem índio, nem negro, nem nada.

Anúncio de escravo fugido em jornal da época

É incerto considerar a que época remontam essas lembranças, alguns falam em 400 anos, outros em 300. Quanto antigo é o Forte? Os poucos acadêmicos que se debruçaram em documentos não têm a resposta. O registro mais antigo da cartografia nos leva a 1809 (CAPITANIA DE GOYAZ DIVISÃO EM JULGADOO), como um Arraial subordinado ao Julgado de Cavalcante.

Ora, é crivel considerar que se o Forte tem a relevância necessária para ser registrado em mapa de uma província tão pouco povoada, o arraial já seria, ao menos, um entroncamento de estradas. Talvez um posto de controle, um nó comercial, uma região a ser evitada ou monitorada?

Ainda em pequena escala, quase doméstica, o vão passa a abrigar incontáveis posses de aventureiros e fugitivos que encontram nas pastagens naturais, na abundância de água, nas salinas naturais, nas veredas e na qualidade do barro, tudo propíco, um território livre.

Já no final de 1800, o pastoreio extensivo já havia tomado vasto território do estado.

Nesse cenário de prosperidade econômica vocacionada, o Vão do Paranã se destaca na exportação de gado, equinos, peles, couros crús e cereais. Reconhecido pelas mais importantes fazenda de criação, abastece os estados do Pará, Maranhão, Bahia e Minas Gerais apesar da falta absoluta de transporte.

Os produtos dos municípios de Posse, São Domingos, São José do Tocantins, Pilar, Cavalcante, Forte, Barreiras e Januaris se dirigem via Riachão, onde os tropeiros e boiadeiros se abastecem dos generos necessários para a travessia do despovoado e arenoso vale do São Francisco.

É uma nova realidade que, sem reservas, atrairá interesses de persongens com influência no centro do poder da República ainda em formação. O sistema produtivo será pressionado para abandonar a vida sertaneja, sem cercas, pré capitalista. As terras em regime de posse e os limites de convivência pacífica com os índios e vaqueiros são estranhos nessas transição.

💡 Você Sabia?

Embora muitos especialistas refutem a teoria de uma etnia cafuza, a história de Goiás prova que esses relacionamentos ocorreram em escala social. Dança da Congada, em Niquelândia Em São José do Alto Tocantins (atual Niquelândia), fundada em 1735, a Festa de Santa Efigênia é um capítulo que, sob o pano folclórico, tem origem em fatos documentados de encontros entre negros e indígenas.

👉 Conheça a origem da festa e a congada criada por escravos e Avá-Canoeiros.

Leia na Parte III – O Avanço da Pecuária, da exploração da madeira e o Genocídio do povo Awã

🖋️ Assim registrou… Quão antigo é o Forte?

“Minha avó veio da Bahia com o pai dela a cavalo, ela era pequena. Aqui era um cerradão, só tinha jatobá. Aquele povo que vinha de lá pra cá, ia pra Mato Grosso, e a Serra é muito alta, aí falou: “Vou pousar aqui”. Aí pousou aí no pezinho da Serra. Achou bom, né? Aí meteu a mão no facão assim “Eu vou arrancar aqui um barro.” Tirou o barro e falou assim: “Sabe que aqui vai dar telha!”, aí amassou, amassou, fez um cachimbo. Aí assou o cachimbo, ele não quebrou. “Vamos fazer umas telhas aqui, fazer um forno”, aí fez um forno. Aí ficou morando lá até fazer as telhas”. (Sr. Vitezinho).

“Minha sogra morava numa roça. Ela era daqui, mas tinha uma roça fora, ali onde tem aquele terreno nosso. Me lembro que eles [índios Avá-Canoeiros] ia lá, fazia movimento… Um dia, ela levantou cedo, pra fazer café porque o povo ia pra roça trabalhar, naqueles tempos. Ela levantava primeiro e caçou as coisas […] na roça tudo é aberto, casa num tem porta […] era um ranchinho…Cadê as vasilha, cadê as vasilha? […]. Daí um pouco, ela ia passando assim, tinha um noquinho assim pra atravessar, e tava a gamelona lá com os trem tudo dentro, na beira da estrada. E aí ela veio: Ô, Joaquim, o marido dela, vem cá! […]. E vem, e vem… Cadê? É cobra? É cobra? Não, chega aqui pra você ver uma coisa. Aí, ó, onde é que tá os trem lá de casa, os pratos, as xícara, o bule, o coador… [risos] Eles num mexia não, fazia essas graça. […] A gente acostumou, né?

Lá na fazenda que eu nasci, eles fazia movimento lá, nós tinha muito medo, tinha dia que chegava aquela galpona [?] na porta lá fazendo barulho, fazendo aparência pra fazer medo na gente. Mas eles também, se mexesse com eles, eles eram brabo […]. Se num fizesse maldade pra eles, eles mostrava só que tava por aí, mas não mexia não”. (Sr. Leão).

“Naquele tempo também todo mundo criava solto, aí. Num tinha esse negócio fechado, nada. Era tudo aberto. Um criava na fazenda di um, um criava na do outro, era assim, tudo misturado o gado. Hoje é que fecharam tudo. […] Tudo era marcado, cada um sabia. Às vezes o meu comia na fazenda dele, o dele comia na minha, eu zelava pra ele, ele zelava pra mim. […] Nenhum ficou rico”. (Sr. Anísio).

“A avó do meu pai foi pegada no laço, ela era índia […]. Apolônio, pai da minha mãe , era filo de índia. O sistema dele era todo de índio”. (Sr. Veríssimo)

📜 Fontes Históricas

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