A história (longa e não oficial, com conjecturas plausíveis, mas incertas) de São João d’Aliança (e toda região Norte de Goiás)
PARTE III – O Forte

Em época incerta, nasce o Forte
Ainda em pequena escala, quase doméstica, o Vão do Paranã passa a abrigar incontáveis posses (ocupação produtiva sem título legal) de aventureiros livres e fugitivos que encontraram nas pastagens naturais, abundância de água, salinas naturais, veredas e qualidade do barro, tudo propíco, um território promisssor.
As exigências da vida pastoril criaram um novo tipo de colono: o vaqueiro. Competia-lhe amansar e ferrar bezerros e novilhos, proteger o gado contra as cobras e as onças, preservá-lo das varejeiras, curar-lhe as bicheiras, conservar as pastagens, desembravar o gado dos grotões e pirambeiras, cavar cacimbas contra a seca.
Já nos auspícios do Império, o pastoreio extensivo tomava vasto território do estado.
Ha no Estado campos nativos que se rivalizam com os mais ricos e cuidados prados articiaes, campos, onde, no dizer insuspeito do grande Brasileiro (…) general Couto Magalhães, “os animais engordam sem outro trabalho mais do que alguns rodeios, não havendo nem mesmo a despeza do sal, visto ser elle nativo nessas regiões abençoadas (…)
Por outro lado, a sua rede hydrographica formada por três grandes bacias distinctas (…) que por toda parte irrigam planaltos e valles, cobertos das mais reicas pastagens nativas.
Nesse cenário de prosperidade econômica vocacionada, o Vão do Paranã se destaca na exportação de gado, equinos, peles, couros crús e cereais. Reconhecido pelas mais importantes fazenda de criação, abastece os estados do Pará, Maranhão, Bahia e Minas Gerais apesar da falta absoluta de transporte e a queixo dos autos impostos.
Os produtos dos municípios de Posse, São Domingos, São José do Tocantins, Pilar, Cavalcante, Forte e Barreiras e Januaris se dirigem via Riachão, onde os tropeiros e boiadeiros se abastecem dos generos necessários para a travessia do despovoado e arenoso vale do São Francisco.
É uma nova realidade que, sem reservas, atrairá interesses de persongens com influência no centro do poder em transição para República. O sistema produtivo será pressionado para abandonar a vida sertaneja, sem cercas, pré capitalista. As terras em regime de posse e a convivência pacífica entre índios e vaqueiros são estranhos à nova economia.
🖋️ Assim registrou… Quão antigo é o Forte?
“Minha sogra morava numa roça. Ela era daqui, mas tinha uma roça fora, ali onde tem aquele terreno nosso. Me lembro que eles [índios Avá-Canoeiros] ia lá, fazia movimento… Um dia, ela levantou cedo, pra fazer café porque o povo ia pra roça trabalhar, naqueles tempos. Ela levantava primeiro e caçou as coisas […] na roça tudo é aberto, casa num tem porta […] era um ranchinho…Cadê as vasilha, cadê as vasilha? […]. Daí um pouco, ela ia passando assim, tinha um noquinho assim pra atravessar, e tava a gamelona lá com os trem tudo dentro, na beira da estrada. E aí ela veio: Ô, Joaquim, o marido dela, vem cá! […]. E vem, e vem… Cadê? É cobra? É cobra? Não, chega aqui pra você ver uma coisa. Aí, ó, onde é que tá os trem lá de casa, os pratos, as xícara, o bule, o coador… [risos] Eles num mexia não, fazia essas graça. […] A gente acostumou, né?
Lá na fazenda que eu nasci, eles fazia movimento lá, nós tinha muito medo, tinha dia que chegava aquela galpona [?] na porta lá fazendo barulho, fazendo aparência pra fazer medo na gente. Mas eles também, se mexesse com eles, eles eram brabo […]. Se num fizesse maldade pra eles, eles mostrava só que tava por aí, mas não mexia não”. (Sr. Leão).
“Naquele tempo também todo mundo criava solto, aí. Num tinha esse negócio fechado, nada. Era tudo aberto. Um criava na fazenda di um, um criava na do outro, era assim, tudo misturado o gado. Hoje é que fecharam tudo. […] Tudo era marcado, cada um sabia. Às vezes o meu comia na fazenda dele, o dele comia na minha, eu zelava pra ele, ele zelava pra mim. […] Nenhum ficou rico”. (Sr. Anísio).
“A avó do meu pai foi pegada no laço, ela era índia […]. Apolônio, pai da minha mãe , era filo de índia. O sistema dele era todo de índio”. (Sr. Veríssimo)
De Quartel a Refúgio de Resistência?
Apesar de ampla pesquisa, motivada pela curiosidade e apoiada em estudos com recursos acadêmicos e compromisso histórico muito além das pretensões deste autor, não foi encontrada uma origem precisa sobre este vilarejo. O Forte permanece como um dos grandes mistérios da região.
Convidativa, porém, é a teoria de que ele tenha surgido como um posto de vigilância estratégico. No tabuleiro colonial, funcionaria como uma “tranca”, combatia as incursões indígenas e inibia o descaminho do ouro, já que estava posicionado exatamente entre as minas e os centros comerciais.
Com o fim da mineração, por volta 1760, 1770, a Coroa retira suas guarnições e as bocainas e cavernas passam a ser o refúgio de quilombolas e remanescentes de Avá-Canoeiros miscigenados com outras etnias. Essa ocupação, se comparada ao processo ocorrido em quilombos cuja história não se perdeu, é confirmada em localidades vizinhas, como Cavalcante e Flores de Goiás. Esse capítulo só tem fundamentação na oralidade dos moradores mais antigos e nas ruinas de muros de pedra existentes até hoje.

Esse território esquecido volta a ser descoberto com a chegada dos posseiros e vaqueiros, como já sabemos, que passsam a dividira em harmonia tácita, observados os limites. Os Avá-Coneiros nas matas e na Chapada, os quilombolas eram os “pretos do riberirão” e os posseioros livres.
A Vila do Forte foi oficialmente criada em 1862 e três anos depois já abrigava a Prefeitura, o cartório, a agência de Correios, a escola.
Algumas décadas depois a escravidão termina e os quilombolas se aproximam do convívio de uma sociedade agrária ainda precária e de subsistência.
Por décadas a vila desenvolve uma estrutura social autossificiente, católica e comunitária, alheia ao avanço das cidades. Essa é a essência dos ascendentes de São João d’Aliança e de muitas cidades da Chapada dos Veadeiros.
Se deixamos nossas tradições, nossas festas, nossas danças, nosso modo de vida, deixamos de ser quilombolas. Desde que me entendo por gente isso é desse jeito.
“A primeira indústria de viagem que conheci foi a bicicleta”, diz seu Leão da Silva Bastos, 79 anos, joelho quebrado e nunca engessado desde os 15, uma bengala para segurar a idade e um turbilhão de histórias para conta.
Um pouco depois, o Forte entrou em pânico: uma zoeira sobrevoava o céu do povoado. Os cavalos dispararam, as galinhas cocoricavam desesperadamente, correndo em círculo e dando saltos para fugir.
Teve gente que deu tremura. Olhava pro céu e não via nada. Só o vrummmm. Nós não sabia o que era isso até que um que tinha mais inteligência disse que era um aeroplano.
Leia na Parte IV – O Genocídio dos Avá-Canoeiros
📜 Fontes Históricas
• Semeando Encontros e Colhendo Histórias na Vila do Forte, no Vão do Paranã – Claudia Almeida Bandeira de Mello.
• FORTE: UM QUILOMBO QUE A HISTÓRIA DESCONHECE – Revista Xapurí.
💡 Você Sabia?
Em São José do Alto Tocantins (atual Niquelândia), fundada em 1735, a Festa de Santa Efigênia é um capítulo que, sob o pano folclórico, tem origem em fatos documentados de encontros entre negros e indígenas.
👉 Conheça a origem da festa e a congada criada por escravos e Avá-Canoeiros.