A história (longa e não oficial, com conjecturas plausíveis, mas incertas) de São João d’Aliança (e toda região Norte de Goiás)
PARTE IV – O Genocídio dos Avá-Canoeiros

Os tempos são outros
Diferente da mineração, que ocupava pontos específicos, a pecuária exigia extensões vastas. Onde antes imperava o silêncio dos vãos, agora ecoava o berrante. Para os Avá-Canoeiros, empurrados para as margens da sobrevivência, o gado dos colonos tornou-se a “caça branca”.
A partir de 1800, o cerco aumentou. Os Avá-Canoeiros, agora dispersos em grupos menores para sobreviver, iniciaram uma transição. Miscigenados e segmentados, eles se tornaram um povo invisível. Escondidos nas matas, observavam o avanço das fazendas durante a noite. Entraram em seu segundo século de conflito, cansados, mas ainda mantendo o pavor nos olhos dos novos habitantes.
O naturalista Johann Emanuel Pohl, em 1819, registrou o clima de assombro:
A aldeia principal dos Canoeiros fica entre as montanhas de além do Duro, até onde nunca penetravam os habitantes brasileiros. Os Canoeiros vagam por toda aquela região e impedem o acesso. Está perdido quem lhes cai às mãos; os homens são mortos a flechadas e as mulheres e crianças levadas para o cativeiro. É tamanho o susto que causam, que ninguém ousa aproximar-se do Rio Maranhão, sendo por isso aquela zona inteiramente desconhecida.
Os canoeiros não permitem a ocupação de extensa área do meio norte goiano. Os governos da Província dirigem inúmeras expedições oficiais contra em os índios com objetivo de aldea-los. Cunha Mattos, Governador das Armas, escreve em 1824: “Os índios com as suas hostilidades têm despovoado mais de oitenta grandes prédios no districto de Amaro Leite, São Félix, Carmo, Chapada e Palma. No districto de Carmo septentrional estão desertas mais de 90 fazendas pelas mesmas causas; e no de Flôres, o mais rico em gados de toda a província, vão as fazendas ficando em deplorável decadência“.
Os embates continuam por mais um século, é o que ainda noticiava a imprensa em 1920, em edição da revista A Informação Goyana.
Por essa época, emquanto o cura de Palma celebrava o sacrificio da missa, uma horda desses nannibaes apoderou-se da Egreja, commenttendo as maiores profanações.
1835: O Espalhafato da Expedição Militar
Diante do terror que impedia o progresso, em 1835, uma resolução da Assembleia Legislativa Provincial cuidou tratar seriamente do assunto e determinou que o gentio Canoeiro deveria ser chamado à paz para o sossego dos povos”.
Documentos preservados na mesma revista revelam a magnitude da intentada liderada por João Accácio de Figueiredo: uma força de 200 homens recrutados em Pilar, Amaro Leite, Crixás, Trahiras, Palma, São Félix, Cavalcane e São José.

E mais uma vez o problema dos índios ficava sem solução. Como veremos mais adiante, os invisíveis ainda assustavam fazendeiros e vaqueiros na década de 80.
A história que manchou de sangue as terras da Chapada dos Veadeiros
Nunca se precisou o território ocupado pelos Avá-Canoeiros. Sua localização é dada a partir dos conflitos com mineradores e agricultores. Com o avanço definitivo das cercas, os proprietários de terras declararam que acabara o tempo dos selvagens.
A partir de 1960, grupos de fazendeiros e grileiros, apoiados por mateiros que conheciam os esconderijos nos vãos, organizaram expedições com um único objetivo: a solução final. Armados com rifles modernos e motivados pela cobiça da terra, esses grupos realizaram verdadeiras varreduras nas matas de galeria. As matanças perduraram até 1980!

Foi uma razia. Em 1984, em artigo publicado pela Revista de Antropologia, André Amaral de Toral faz um minucioso apanhado da tática de genocídio. Cita a repercução na imprensa nacional e a atuação tardia da Fundação Nacional do Índio. O Documentário Avá-Canoeiro – A Teia do Povo Invisível, dirigido por Mara Moreira, é chocante.
Os Avá-Canoeiros foram caçados e exterminados sob o silêncio e cumplicidade da FUNAI. Grupos foram emboscados na mata e queimados, perseguidos por cachorros e abatidos a tiros. Chegou-se ao absurdo de recrutarem outros índio para auxiliar na tática de cerco.
Relato de índio Javaé, João Tadiú, contratado para participar de uma emboscada na região do Araguaia:
Oh, João, o Avá-Canoeiro matou um burro e nós vamo matá, matá, cabá com a raça dele tudo… você vem sábado. Tá? Aí eles rodearam assim, ó [aponta para o horizonte], de fogo… Avá-Canoeiro… mataram tudo. Aqui na beira da mata azul, aqui ó, eu te mostro até hoje… onde eles queimaram eles, viu? Era muitos, (…) mais ou menos 120, 110, assim.
Atualmente, a população total gira em torno de 47 pessoas, num esforço lento de recuperação demográfica:
No Tocantins (Ilha do Bananal): Cerca de 39 pessoas vivem sob a complexa convivência com os Javaé e Karajá — uma união que, embora desafiadora para a manutenção da identidade étnica distinta, foi uma estratégia necessária para garantir a continuidade física do povo.
Em Goiás (Terra Indígena Avá-Canoeiro, Minaçu): Apenas 8 indivíduos resistem em 31,4 mil hectares.

Ainda no início de 2000, moradores de sítios e pequenas fazendas isoladas, que mantém um estilo de vida tradicional das roças antigas, relatam encontros com pequenos grupos ou indivíduos isolados de Avá-Canoeiros. Em especial às margens de córregos ou no alto de morros, em áreas de vegetação preservada.
Ao contrário dos contatos de décadas atrás, os sitiantes, embora com certo receio, veem com respeito e complacência os vizinhos furtivos. Ainda que os índios abatam animais de criação e furtem ferramentas de corte, um respeito reparador permite a convivência pacífica entre os moradores da mata.
Leia na Parte IV – São João d’Aliança nos tempos atuais
🖋️ Assim registrou… Massacre dos Avá-Canoeiros: o holocauto nosso de cada dia
A presença deles foi notada em 1973 (…). A região de Cavalcante, Uruaçu e Minaçu também já ouviu falar muito das aparições fugazes desses índios (…) ‘Meu neto viu a vaca atacada por um estrepe e avisou a todos. Só depois que tiramos vimos que era uma flecha’. (…)
Estudiosos asseguram que nem sempre foram agressivos (…). Quem cona uma história sobre isso é José Fernandes Sobrinho, natural de Uruaçu, pessoa que conhece profundamente a região (…). ‘Eles não eram violentos, até quando um acontecimento, envolvendo o Correia de Miranda, desencadeou uma guerra. Um dia, quando ele vinha do Sul com um carregamento de viveres, viu uma índia, bonita, em Ourinho de Deus. Atirou nela, matou-a e cortou seu seio, levando-a para verem o que tinha feito.
Os índios atacaram sua fazenda e mataram toda a família, fazendo a mesma coisa (…). Correia de Miranda arranjou um rastreador, um índio chamado Cunha, e foi procurar o aldeamento dos Avá, que era na Fazenda Veríssimo. Houve ali um massacre, que matou mais ou menos 50 ´ndios, entre crianças, velhos e mulheres; poucos sobreviventes conseguiram fugir. (…) Sobreviveu um índio novinho, que João Correia adotou – mais tarde, disseram que o indiozinho poderia se vingar, e João Correia mandou matá-lo (…). José Fernandes Sobrinho conta que nesse ataque aos Avá-Canoeiros destacou-se na defesa um negro remananescente dos escravos fugidos (…) e que veio morrer na boca das armas (…).
Para um Avá-Canoeiro, acuado no mato como bicho bravo, uma vaca não tem valor comercial – ele não (…) tem consciência de que o animal é uma propriedade de alguém. Move seu gesto de matá-lo a fome, que o está matando aso poucos.
Daí, talvez, o gesto de rendição dos Avá em Minaçu, que praticamente procuraram o contato com os brancos, coisa que se recusam a fazer há anos, apesar de acossados.”
📜 Fontes Históricas
• Avá-Canoeiro – A Teia do Povo Invisível (Documentário)
• Aldeamentos Indígenas em Goiás (1749-1811) – Marivone Chaim
• Revista de Antropologia (Vol. 27/28) – André Amaral de Toral