A história (longa e não oficial, com conjecturas plausíveis, mas incertas) de São João d’Aliança (e toda região Norte de Goiás)
PARTE V – São João d’Aliança nos tempos atuais

O Forte sobe a serra
Em 1862, uma epidemia de malária atinge a Freguesia de Nossa Senhora do Rosário de Flores. Em busca de terras mais salubres, a sede administrativa é transferida para a Vila do Forte que passa a conhecer um período de relevância política e social. A vila agora é o centro de arrecadação de impostos da produção de todo o Vão do Paranã. Passa a abrigar o Cartório, o Correio, a Câmara Municipal.
Os moradores falam de um tempo de grande efervescência social e política, prosperidade económica, intensa circulação de carros de boi e cavaleiros, com festas grandiosas que reuniam pessoas vindas de toda a região.
Em 1898, novos ares varrem o mundo e, com a Proclamação da República, a nova constituição determinou que “Fica pertencendo à União, no planalto central, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada para nela estabelcer-se a futura Capital Federal“.

Em seu parágrafo único estabelecia que, “efetuada a mudança da Capital, o atual Distrito Federal passará a constituir um Estado”. A determinação em Carta Magna era imperiosa e então, o presidente Floriano Peixoto ordenou a criação de uma comissão de cientistas para explorar e demarcar, no Planalto Central, a área que receberia a capital nova da República.
Autorizada pelo Congresso, a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, sob a liderança do engenheiro e astrônomo, o belga Louis Ferdinand Cruls, a Comissão Cruls, partiu em junho de 1892 rumo ao coração do Brasil.

💡 Você Sabia?
O desejo de interiorizar a capital não nasceu com a República. Já em 1761, o Marquês de Pombal, influente ministro do Rei Dom José I, sugeria que a sede do Império Português fosse transferida para o interior do Brasil. O motivo era estratégico: a Coroa temia ataques navais de potências europeias (como Espanha e França) às cidades litorâneas, vulneráveis na Península Ibérica e na costa brasileira.
Naquela época, o território goiano foi mapeado pelo cartógrafo Francisco Tossi Colombina, e o valor logístico do Planalto Central já se destacava. Contudo, a necessidade de controlar de perto o escoamento do ouro de Minas Gerais falou mais alto, e em 1763 a capital foi transferida de Salvador para o Rio de Janeiro, mantendo-se no litoral, mas aproximando-se das minas. O plano ficou adormecido por quase dois séculos, mas a interiorização estava presdestinada.
Nessa época, ao longo da picada que ligava o centro de Goiás ao Nordeste, dezenas de vilas e menos de meia dúzia de pequenos povoados, remanescentes dos tempos áureos, tentavam subsidiar com roças precárias e pequenos rebanhos.
Um deles, o distrito de Capetinga, mesmo nome do rio que corta o terreno, subordinado ao município de Forte. Segundo o primeiro registro oficial conhecido, em 1910, contava com duas casas e uma pequena capela dedicada a São João. Mais tarde, tornou-se São João da Capetinga, em louvor ao santo padroeiro.
Fazia-se eminente que, a menos de 200 quilômetros dalí, seria edificada a nova capital. A vida no fundo do vale não acompanha os novos tempos. A capital exigiria ligação rodoviária entre todas as regiões do país. O caminho inevitável é pelo topo do planalto.

Distrito do Forte, nos dias atuais. A serra ao fundo é cortada pela GO 118, consolidada na década de 70.
Em 1931, o município de São João da Capetinga foi elevado à categoria de vila, com o novo topônimo de São João d’Aliança, em homenagem à Aliança Liberal que triunfou em 1930. Uma ano depois, tornou-se sede do município de Forte (que retoma a condição de povoado). Em 1938, o município de São João d’Aliança é extinto e seu território anexado ao município de Formosa. Em 1950, é novamente elevado a município.
O Forte Hoje
A população da vila de Forte não passa de 40 famílias, predominantemente idosos. É um cenário de abandono. Os jovens saem da vila assim que possível, em busca de emprego nas cidades e fazendas grandes. Permanecer no campo, no estilo de vida de séculos atrás, não é uma opção de futuro promissor, não é o destino que os pais desejam aos filhos.

O posto de saúde recebe apenas visitas mensais de um médico. Não há farmácias, os atendimentos cotidianos contam com medicamentos básicos, ervas, unguentos e chás. Uma vez por mês, vindo de SJA, um caminhão busca e trás aposentados para recebimento dos proventos. O comércio local se resume a dois armazéns com pouca variedade. Uma escola rural atende, simultaneamente, alunos do 1º ao 9º anos. Energia e água encanada chegaram por volta de 2000.
Algumas tradições ainda são preservadas, como a Caçada da Rainha, que vem atraindo jovens e moradores das cidades e vilas vizinhas.
Há o dia do imperador e o dia do rei e da rainha. Há os almoços oferecidos nos dois dias, comida feita coletivamente e partilhada por todos, em longas filas, grandes panelas e muita sabedoria de quem comanda as cozinhas. Há o mastro a ser erguido em homenagem ao Divino Espírito Santo; há a fogueira alta que arde na noite de sábado.

São João d’Aliança Hoje
A proximidade com Brasília, fundada na década de 60, a grande disponibilidade de terras férteis exploradas por fazendeiros vindos do Sul do país, na década de 70, e o incremento do turismo com a consolidação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeios, na década de 80, alavancam o crescimento de São João d’Aliança.
A despeito de guardar uma riqueza natural rara, um dos maiores e mais diversos acervos de atrativos naturais do Cerrado, com uma rede de estradas e trilhas bem estruturadas, SJA está adormercida no ecoturismo, alheia ao próprio potencial. O turismo na natureza ainda não prosperou; está patinando, ante a ausência de políticas públicas de longo prazo e a falta de união entre os proprietários de fazendas, RPPNs, pousadas, restaurantes e os guias locais.
Com população de aproximadamente 15.000 habitantes, SJA conta com a maior estrutura de comércio e serviços da microrregião da Cahpada dos Veadeiros. O agronegócio representa 62% do PIB municipal, basedo em grandes lavouras estruturadas com tecnologia avançada e manejo de alta produtividade.
💡 Você Sabia?
Caçada da Rainha é uma joia do folclore do nordeste goiano que resgata, de forma mística, um dos momentos mais importantes da história do Brasil: a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888. Na época, a Princesa Isabel governava o país como regente enquanto seu pai, o Imperador Dom Pedro II, tratava da saúde na Europa. Quando a notícia da abolição da escravatura viajou pelas estradas de terra e chegou, com muito atraso, às comunidades isoladas do interior de Goiás, a população local misturou o fato real à imaginação popular, criando a lenda de que a monarca havia fugido para o cerrado por medo da fúria e do castigo do pai ao retornar.
Essa história ganhou vida e passou a ser encenada anualmente pelo povo em um rito teatral e festivo dividido em etapas bem marcadas. Durante a festa, os moradores que interpretam a Rainha e o Rei desaparecem secretamente nas matas densas da região, enquanto uma comitiva de cavaleiros e foliões sai em disparada pelo cerrado para caçá-los. O ápice do evento ocorre quando a corte é finalmente localizada e trazida de volta à cidade sob o estalar de foguetes, abrindo espaço para um grande banquete comunitário e para a dança do sussa — um batuque herdeiro das senzalas onde as mulheres dançam equilibrando garrafas na cabeça para celebrar a liberdade conquistada.Além de sua força cênica, a festividade é um exemplo marcante de sincretismo religioso e resistência cultural, unindo tradições católicas ao universo das comunidades negras e quilombolas da Chapada dos Veadeiros. O festejo ocorre tradicionalmente em louvor ao Divino Espírito Santo e a Nossa Senhora do Rosário, entrelaçando as missas e alvoradas da Igreja com os tambores-de-rabo e os cantos ancestrais herdados dos africanos escravizados. Essa fusão sagrada e profana transformou a Caçada da Rainha em Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de Goiás, um símbolo vivo de fé, identidade e memória que continua a encantar novas gerações.
Como dito no primeiro post da série: a história começa e termina nos vales. Os poucos remanescentes originais dos Avá-Canoeiros estão sitiados no vale do Rio Araguaia e do Lago de Serra da Mesa. Os poucos descendentes da comunidade do Forte estão esquecidos no Vale do Paranã. Se somarmos todos, passamos pouco de duas centenaa de pessoas que ainda guardam essa história.
📜 Fontes Históricas
• Semeando Encontros e Colhendo Histórias na Vila do Forte, no Vão do Paranã – Claudia Almeida Bandeira de Mello.