registro histórico da vila de forte

A história (longa e não oficial, com conjecturas plausíveis, mas incertas) de São João d’Aliança (e toda região Norte de Goiás)

PARTE II – O Cerco aos invisíveis e a Pólvora Inútil

A história oficial costuma datar o povoamento de São João d’Aliança no final do século XIX, mas os registros de Paulo Bertram e as crônicas do Padre Silva e Souza revelam um cronômetro muito mais antigo.

Em 1773, o governador D. José de Almeida Vasconcelos já cruzava a região vindo do Norte pela Picada de Goiás, segundo diário de viagem:

Sempre viajando à noite, que tal era o seu estranho costume, conquanto não desprovido de bom senso face aos dias abrasadores do sertão (…). Do extinto São Félix, tangenciando as magníficas altitudes de Alto Paraíso na Chapada dos Veadeiros, o capitão general veio direto sobre São João D’Aliança, antiga Capitinga, e sobre Cocal do Andrade, nas proximidades da cidadezinha de São Gabriel de Goiás.

Como dissemos no início da série de posts, a história de SJA sobrepõe diversos atores, como dá-nos notícia um dos nossos primeiros historiadores, o padre Silva e Souza, de que os bandeirantes do Anhanguera teriam se deparado com cabeças de gado bravio que já pastavam naturalmente na região do Vão do Paranã.

O Embate entre o Pasto e a Selva

Diferente da mineração, que ocupava pontos específicos, a pecuária exigia extensões vastas. Onde antes imperava o silêncio dos vãos, agora ecoava o berrante. Para os Avá-Canoeiros, empurrados para as margens da sobrevivência, o gado dos colonos tornou-se a “caça branca”.

A partir de 1800, o cerco aumentou. Os Avá-Canoeiros, agora dispersos em grupos menores para sobreviver, iniciaram uma transição. Miscigenados e segmentados, eles se tornaram um povo invisível. Escondidos nas matas, observavam o avanço das fazendas durante a noite. Entraram em seu segundo século de conflito, cansados, mas ainda mantendo o pavor nos olhos dos novos habitantes.

O naturalista Johann Emanuel Pohl, em 1819, registrou o clima de assombro:

Os embates continuam por mais um século, é o que ainda noticiava a imprensa em 1920, em edição da revista A Informação Goyana.

1835: O Espalhafato da Expedição Militar

Diante do terror que impedia o progresso, em 1835, uma resolução da Assembleia Legislativa Provincial cuidou tratar seriamente do assunto e determinou que o gentio Canoeiro deveria ser chamado à paz para o sossego dos povos”.

Documentos preservados na mesma revista revelam a magnitude da intentada liderada por João Accácio de Figueiredo: uma força de 200 homens recrutados em Pilar, Amaro Leite, Crixás, Trahiras, Palma, São Félix, Cavalcane e São José.

Recorte da Revista A Infomação Goyana

E mais uma vez o problema dos índios ficava sem solução. Como veremos mais adiante, os invisíveis ainda assustavam fazendeiros e vaqueiros na década de 80.

O Crepúsculo dos Guerreiros: Das Caçadas ao Silêncio Forçado

O “empate técnico” que forjou o Forte no século XIX não durou para sempre. Se antes os Avá-Canoeiros paralisavam exércitos com o pavor de suas flechas invisíveis, o século XX trouxe uma barbárie sem o verniz da “guerra oficial”. Com o avanço definitivo das cercas, o que era um embate entre mundos tornou-se uma caçada unilateral.

As Patrulhas do Extermínio Nas décadas de 1960 e 1970, grupos de fazendeiros e grileiros, apoiados por “mateiros” que conheciam os esconderijos nos vãos, organizaram expedições com um único objetivo: a solução final para o “problema” indígena. Armados com rifles modernos e motivados pela cobiça da terra, esses grupos realizaram verdadeiras varreduras nas matas de galeria.

Não eram mais conflitos; eram massacres. Onde antes se ouvia o piar da juriti, agora ecoavam disparos contra famílias inteiras escondidas em fendas de rocha. O genocídio foi tão eficaz que, por anos, acreditou-se que os Avá-Canoeiros de Goiás haviam sido completamente extintos.

A Intervenção da FUNAI e o Resgate dos Espectros Foi apenas sob o peso dessa quase extinção que o Estado interveio. A FUNAI, em um esforço tardio de “pacificação”, encontrou os sobreviventes em um estado de trauma profundo.

  • O Grupo de Minaçu: Em 1983, a equipe de contato encontrou o que restava do povo indomável: apenas duas mulheres (Tuia e Magret) e dois homens (Matu e Niure). Eles viviam em um isolamento absoluto e aterrador, escondidos em cavernas para escapar das balas dos fazendeiros. O “povo invisível” agora o era por necessidade de sobrevivência extrema.
  • O Confinamento Final: O destino foi o aldeiamento forçado. Parte foi levada para a Ilha do Bananal, em um ambiente geográfico e cultural completamente alheio ao seu DNA de montanha e vale. Outros permaneceram em áreas exíguas, como em Minaçu, sob a sombra das grandes hidrelétricas que inundaram suas terras ancestrais.

Hoje, os Avá-Canoeiros não são mais os senhores do Rio Maranhão. O povo que outrora detinha o progresso de uma Província inteira com o poder de seus arcos, vive hoje confinado, lutando contra o apagamento de sua memória. O cerco que começou com o gado de Silva e Souza em 1700 terminou no concreto das barragens e no silêncio das aldeias tuteladas.

A história de São João d’Aliança e do Forte carrega essa marca: somos o solo onde o arco encontrou o quilombo, mas somos também o cenário onde o último suspiro de uma nação livre foi dado sob o peso da pólvora — que, desta vez, infelizmente não foi inútil.

O Forte: De Quartel a Refúgio de Resistência?

Apesar de ampla pesquisa, motivada pela curiosidade e apoiada em estudos com recursos acadêmicos e compromisso histórico muito além das pretensões deste autor, não foi encontrada uma origem precisa sobre este vilarejo. O Forte permanece como um dos grandes mistérios da região.

Convidativa, porém, é a teoria de que ele tenha surgido como um posto de vigilância estratégico.No tabuleiro colonial, funcionaria como uma “tranca”, combatia as incursões indígenas e inibia o descaminho do ouro, já que estava posicionado exatamente entre as minas e os centros comerciais. Três pilares sustentam essa tese:

1. O Sentinela Geográfico Diferente das sedes administrativas, o Forte ocupava o “degrau” entre o Vão do Paranã e o Planalto Central. Quem dominava o Forte controlava taticamente a única passagem viável entre as terras baixas e as altitudes da Chapada.

2. A Zona de Sombra Administrativa Por ser um posto militar e fiscal, o Forte respondia diretamente ao Comando das Armas, e não às câmaras civis. Isso explica por que ele “some” dos arquivos paroquiais e burocráticos: era uma zona de operação militar, um entroncamento silencioso onde o “povo misto” negociava longe do rigor estatal.

3. O Centro do Conflito O silêncio oficial sobre o local reflete o medo: o Estado evitava detalhar o que não conseguia controlar totalmente.

Com o fracasso militar e o isolamento, o Forte tornou-se um ímã para os excluídos:

  • Negros quilombolas: mestres na sobrevivência nos vãos;
  • Vaqueiros rudes: buscando terra e proteção mútua;
  • Descendentes Avá-Canoeiros: que, cansados da guerra total, começaram a integrar-se como índios mansos ou cafusos.

💡 Você Sabia?

Existe um capítulo esquecido em Niquelândia onde a fé em Santa Efigênia selou uma aliança secreta entre negros e índios para desafiar o isolamento do Império.

Cruzaremos os limites da Chapada para revelar a “Aliança Proibida”: o lugar onde a união foi a única arma capaz de vencer a força da Coroa.

👉 Leia agora: A Aliança de Santa Efigênia

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