A história (longa e não oficial, com conjecturas plausíveis, mas incertas) de São João d’Aliança (e toda região Norte de Goiás)

PARTE II – A dura transição entre a mineração e a pecuária

Mascates carregando mulas com mercadorias para viagem

Os primórdios da pecuária no Nordeste Goiano

A colonização do interior fora permitida – e incentivada – pela Coroa Portuguesa desde 1600. Tradicionais Casas Portuguesas investiram na ocupação das Terras Novas, região do Rio Palma e baixo Paranã [Nordeste goiano, divisa com Tocantins e Bahia, o coloquial “ToBa”] desde 1697.

Em requerimento encaminhado ao então Capitão-General, em 1740, fazendeiros relatam que intentaram conquistar o gentio Acoroassu, ocupante das Terras Novas, por volta de 1705, mas não conseguiram expulsá-los nem levá-los a paz. Só puderam povoar um fazenda de nome Sobrado. (…) Havendo muitas lutas e assaltos dos índios, foram obrigados a retirar-se, deixando os gados.

Passados anos, o coronel Garcia d’Ávila Pereira (o maior latifundiário do mundo) mandou cerca de 400 homens armados em nova tentativa que só avançou até a citada fazenda, que voltou a ser povoada. Em 1708, foram novamente obrigados a retirar-se, tornando a deixar gado nesse sertão que conquistaram.

Ainda segundo o registro, retornaram em 1730, seguindo pelo Rio Palma, chegando ao baixo curso do Paranã (atualmente, divisa Nordeste entre GO e TO), onde estabeleceram fazendas e comércio de farinhas, milhos e bananas.

Mapa thopographico em que se demonstra a extenção de terreno que ocupa na Capitania de Goyáz segundo regimento de Cavalaria Auxiliar da mesma Capitania

Mappa thopographico em que se demonstra a extenção de terreno que ocupa na Capitania de GoyázClique para ampliar em HTML. Na altura da Chapada dos Veadeiros, na borda Oeste, lê-se:

Em mesma época, outras frentes provinham do vale do São Francisco e do sertão do Piauí. Logo, toda a região foi apropriada por vaqueiros e comerciantes baianos, trazendo tropas de animais carregados de mercadorias. Como dá-nos conta um dos nossos primeiros historiadores, Padre Silva e Souza:

Com o avanço da mineração, gado e ouro passaram a ser atividades simultâneas e integradas. O gado era fonte de alimento, força de tração e transporte fundamentais aos arraiais e ao sustento dos fazendeiros e comerciantes.


O fim do ciclo do ouro

Em 1773, o governador D. José de Almeida Vasconcelos patrulhava o provincia, fazendo-se iminente para todo o lado a extinção aurífera, Foi recebido nos arraiais condenados à decadência com o ânimo gentil com que as últimas esperanças lançam pontes por sobre os abismos das derradeiras misérias.

O diário de viagen nos traz o primeiro registro do aldeamento do Forte, em referência ao rio que nominava a região: Capitinga.

Sempre viajando à noite, que tal era o seu estranho costume, conquanto não desprovido de bom senso face aos dias abrasadores do sertão (…). Do extinto São Félix, tangenciando as magníficas altitudes de Alto Paraíso na Chapada dos Veadeiros, antiga Viadeiros, o capitão general veio direto sobre São João D’Aliança, antiga Capitinga, e sobre Cocal do Andrade, nas proximidades da cidadezinha de São Gabriel de Goiás.

Mapa Província de Goyaz - 1753

Mapa Geral da Capitania de Goyaz (1753) – Clique para abrir em HTML – No centro direito (região contornada em azul esverdeado), está representado o Rio Paranã, e a legenda diz: “Certão degado, chamado Paranã”.

Com o fim da mineração a província cai em desgraça, toda a sorte de estrutura foi realizada com objetivo de minerar. Ningém trabalhou a benefício da agricultrua, do comércio, dos meios de povoar e civilizar: o ouro, só o ouro, eis o imã dos itinerantes; tudo mais era para eles objeto indiferente ou que não merecia atenção.

Faltam estradas, pontes, os arraiais estão decadentes, as casas são taperas, o terreno é produtivo, mas exige trabalho para produzir, falta ânimo ao lavrador. Cunha de Mattos, Governador de Armas, em 1823 se estabeleceu em Cavalcante com ordens de conhecer e registrar a região.

🖋️ Assim registrou…

“A agricultura, se é que tal nome se pode dar aos trabalhos rurais (…) acha-se no maior desprezo. (…) Inventando pretextos frívolos com que encobrem a preguiça, clamam que não podem dar saída aos gêneros e andam como múmias, mortos de fome. Não querem trabalhar, contemtam-se com a mendicância, com o roubo, com a caça dos bosques, frutos das árvores e raízes da terra; e isto mesmo quando as acham com facilidade, pois que a dificultar-se lhes, tomam como alimento o mel de abelhas que encontram em algumas rochas ou árvores.

Existem poucos lavradores que mereçam este nome (…): os mais industriosos cultivam a cana-de-açúcar, milho, feijão e arroz para suprimento de suas famílias (…). Algumas pessoas criam muitos e excelentes porcos sustentados a milho, quando o há; fazem-se poucos queijos e ainda menos manteiga. O gado vacum e cavalar não é pensado com o desvelo que merece: as peles dos que morrem nem sempre se aproveitam e as fêmeas parem no campo e estão expostas as hostilidades das onças e outros animais ferozes. (…).

A terra é a melhor possível; a gente é boa, mas a preguiça de quase toda chega a um grau inexplicável. Não se vende porque não há; não se compra, porque não se vende; não há, porque não trabalham (…).

Uma incalculável quantidade de vadios gira constantemente pelas fazendas. Armados de violinha, ou de espingarda, aquela para lhes dar meios de sustentação em ociosidade e esta para lhe dar carne de veado ou de porco do mato para se sustentarem (…).

Desgraçados agricultores de Goiás sujeitos a todos os flagelos dos vadios, dos ladrões, dos cobradores de dízimo, dos avaliadores ou arbitradores, dos agentes ou cobradores da fazenda pública, dos juízes, dos comandantes, dos governadores, finalmente sujeitos a todas as violências e adversidades!”

A Formação do Forte – uma comunidade diversa e ativa surge entre as escarpas

Diferente do relato de Cunha de Mattos, que narra a decadência do goiano herdeiro de um espólio falido, o Forte é abrigo de homens e mulheres que buscavam um futuro promissor, convictos que a empreita exigiria farta disposição para a labuta, designio que não falta a desvalidos que nunca tiveram nada.

Relatos orais de antigos moradores do Vão do Paranã, entre Forte e Couros (atualmente Formosa), rememorando histórias recontadas por gerações, afirmam que o vale era um terreno de posseiros mulatos, cafuzos e negros fugidos (uma nova categoria de brasileiro) que domesticaram vacunos desgarrados de rebanhos curraleiros oriundos da Bahia e do Piauí. Era o mameluco-brasilíndo, nem europeu, nem índio, nem negro, goiano do sertão.

Anúncio de escravo fugido em jornal da época

É incerto considerar a que época remontam essas lembranças, alguns falam em 400 anos, outros em 300. Quanto antigo é o Forte? Os poucos acadêmicos que se debruçaram em documentos não têm a resposta. O registro mais antigo da cartografia nos leva a 1809 (CAPITANIA DE GOYAZ DIVISÃO EM JULGADO), como um Arraial subordinado ao Julgado de Cavalcante.

Ora, é crível considerar que se o Forte tem a relevância necessária para ser registrado em mapa de uma província tão pouco povoada, o arraial já seria, ao menos, um entroncamento de estradas. Talvez um posto de controle, um nó comercial, uma região a ser evitada ou monitorada?

Leia na Parte III – O Forte

📜 Fontes Históricas

Escritos Sobre a História de Goiás – Cristiano Arrais, Eliézer Oliveira e Maria de Fátima Oliviera.

História da Terra e do Homem do Planalto Central – Paulo Bertram.

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