A história (longa e não oficial, com conjecturas plausíveis, mas incertas) de São João d’Aliança (e toda região Norte de Goiás)

PARTE III – O Forte

Mascates carregando mulas com mercadorias para viagem

Anotações:
01 história do Forte – festas tradicionais 25

O Embate entre o Pasto e a Selva

Diferente da mineração, que ocupava pontos específicos, a pecuária exigia extensões vastas. Onde antes imperava o silêncio dos vãos, agora ecoava o berrante. Para os Avá-Canoeiros, empurrados para as margens da sobrevivência, o gado dos colonos tornou-se a “caça branca”.

A partir de 1800, o cerco aumentou. Os Avá-Canoeiros, agora dispersos em grupos menores para sobreviver, iniciaram uma transição. Miscigenados e segmentados, eles se tornaram um povo invisível. Escondidos nas matas, observavam o avanço das fazendas durante a noite. Entraram em seu segundo século de conflito, cansados, mas ainda mantendo o pavor nos olhos dos novos habitantes.

O naturalista Johann Emanuel Pohl, em 1819, registrou o clima de assombro:

Os embates continuam por mais um século, é o que ainda noticiava a imprensa em 1920, em edição da revista A Informação Goyana.

1835: O Espalhafato da Expedição Militar

Diante do terror que impedia o progresso, em 1835, uma resolução da Assembleia Legislativa Provincial cuidou tratar seriamente do assunto e determinou que o gentio Canoeiro deveria ser chamado à paz para o sossego dos povos”.

Documentos preservados na mesma revista revelam a magnitude da intentada liderada por João Accácio de Figueiredo: uma força de 200 homens recrutados em Pilar, Amaro Leite, Crixás, Trahiras, Palma, São Félix, Cavalcane e São José.

Recorte da Revista A Infomação Goyana

E mais uma vez o problema dos índios ficava sem solução. Como veremos mais adiante, os invisíveis ainda assustavam fazendeiros e vaqueiros na década de 80.

O Crepúsculo dos Guerreiros: Das Caçadas ao Silêncio Forçado

Se antes os Avá-Canoeiros paralisavam exércitos com o pavor de suas flechas invisíveis, o século XX trouxe uma caçada sem o aval da guerra santa. Com o avanço definitivo das cercas, os proprietários de terras declararam que acabara o tempo dos selvagens.

Nas décadas de 1960 e 1970, grupos de fazendeiros e grileiros, apoiados por mateiros que conheciam os esconderijos nos vãos, organizaram expedições com um único objetivo: a solução final. Armados com rifles modernos e motivados pela cobiça da terra, esses grupos realizaram verdadeiras varreduras nas matas de galeria.

Não eram mais conflitos; eram massacres. Onde antes se ouvia o piar da juriti, agora ecoavam disparos contra famílias inteiras escondidas em fendas de rocha. O genocídio foi tão eficaz que, por anos, acreditou-se que os Avá-Canoeiros de Goiás haviam sido completamente extintos.

A Intervenção da FUNAI e o Resgate dos Espectro

Foi apenas diante da quase extinção que o Estado interveio, ainda que com métodos pouco recomendados. A FUNAI, em esforço de pacificação, encontrou grupos de sobreviventes traumatizados e fisicamente esgotados.

A FORMAÇÃO DOS GRUPOS RESGATADOS PELA FUNAI

Hoje, os Avá-Canoeiros não são mais os senhores do Rio Maranhão. O povo que outrora detinha o progresso de uma Província inteira com o poder de seus arcos, vive hoje confinado, lutando contra o apagamento de sua memória. O cerco que começou com o gado de Silva e Souza em 1700 terminou no concreto das barragens e no silêncio das aldeias tuteladas.

A história de São João d’Aliança e do Forte carrega essa marca: somos o solo onde o arco encontrou o quilombo, mas somos também o cenário onde o último suspiro de uma nação livre foi dado sob o peso da pólvora — que, desta vez, infelizmente não foi inútil.

O Forte: De Quartel a Refúgio de Resistência?

Apesar de ampla pesquisa, motivada pela curiosidade e apoiada em estudos com recursos acadêmicos e compromisso histórico muito além das pretensões deste autor, não foi encontrada uma origem precisa sobre este vilarejo. O Forte permanece como um dos grandes mistérios da região.

Convidativa, porém, é a teoria de que ele tenha surgido como um posto de vigilância estratégico.No tabuleiro colonial, funcionaria como uma “tranca”, combatia as incursões indígenas e inibia o descaminho do ouro, já que estava posicionado exatamente entre as minas e os centros comerciais. Três pilares sustentam essa tese:

1. O Sentinela Geográfico Diferente das sedes administrativas, o Forte ocupava o “degrau” entre o Vão do Paranã e o Planalto Central. Quem dominava o Forte controlava taticamente a única passagem viável entre as terras baixas e as altitudes da Chapada.

2. A Zona de Sombra Administrativa Por ser um posto militar e fiscal, o Forte respondia diretamente ao Comando das Armas, e não às câmaras civis. Isso explica por que ele “some” dos arquivos paroquiais e burocráticos: era uma zona de operação militar, um entroncamento silencioso onde o “povo misto” negociava longe do rigor estatal.

3. O Centro do Conflito O silêncio oficial sobre o local reflete o medo: o Estado evitava detalhar o que não conseguia controlar totalmente.

Com o fracasso militar e o isolamento, o Forte tornou-se um ímã para os excluídos:

  • Negros quilombolas: mestres na sobrevivência nos vãos;
  • Vaqueiros rudes: buscando terra e proteção mútua;
  • Descendentes Avá-Canoeiros: que, cansados da guerra total, começaram a integrar-se como índios mansos ou cafusos.

💡 Você Sabia?

Existe um capítulo esquecido em Niquelândia onde a fé em Santa Efigênia selou uma aliança secreta entre negros e índios para desafiar o isolamento do Império.

Cruzaremos os limites da Chapada para revelar a “Aliança Proibida”: o lugar onde a união foi a única arma capaz de vencer a força da Coroa.

👉 Leia agora: A Aliança de Santa Efigênia

🖋️ Assim registrou…

“O ouro e os diamantes duram um escasso século. Furaram-se as montanhas, eventraram-se os aluviões e, passada a febre, permaneceram plantadas as cidades coloniais, as roças e as fazendas de gado. Com o passar do tempo sem tempo dos sertões centrais, formulava-se o Homo cerratensis moderno.

Vagamente ateu, com inclinação às superstições, mais céptico do que fatalista, temente aos caprichos da Varia Fortuna, o cerradeiro ou cerratense é por excelência um homem barroco. Criado nos ocos sertanejos, acredita na liberdade, sua natural condição: daí a dificuldade em aceitar o trabalho de rotina ou qualquer trabalho, a menos que lhe acene a deusa romana da Varia Fortuna. Não tem preconceitos, como os terribilíssimos do universo nordestino de Gilberto Freire. Em conseqüência é o povo mais miscigenado de negro do país e um dos poucos em que, contraditoriamente, não há herança cultural marcadamente africana, devorada pelo barroquismo imperante.

Algumas gramáticas portuguesas do tempo do neocolonialismo salazarista traziam freqüentemente um mapa-múndi mostrando as modificações e expansão do idioma de Camões pelo mundo, estampando, nos sertões do centro do Brasil, uma interrogação com os dizeres: linguagem e prosódia não identificados. O ente inominado: o jardim de cerrados das Oréades.”

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